quinta-feira, 26 de junho de 2008

Ande de celular

Atualmente nada do que é nosso, pode-se acreditar que continuara sendo. Falo de coisas materiais mesmo, porque sentimentos podem até mudar mais nunca ninguém os levara. Somos pessoas normais, vivemos num regime capitalista, onde a principal função é consumir mais e mais. Acontece que se compramos, consumimos, é porque o nosso dinheiro (muitas vezes suado, ou não) pode nos proporcionar tal prazer. Sim, obvio que somos materialistas, mas como pode haver cobranças a respeito se fomos, sem permissão, enquadrados nesse sistema de consumo desenfreado?
Na realidade o que eu quero dizer, é que não interessa o objeto o qual você investiu para possuir, pode ser qualquer coisa, uma caneta, um celular, uma bolsa, enfim. Não interessa. É seu e pronto. Claro que todos deveriam possuir coisas próprias que lhes fizessem bem, ou trouxessem alguma alegria, mas não é isso que acontece e sabemos bem. Eu tava pensando, a gente não faz muita coisa pra mudar a realidade das pessoas, mas como a gente pode fazer? Não adianta tentar se culpar, a culpa não é suficientemente nossa, é histórica e veio com o tempo, não houve mudança de conduta e deixaram perpetuar a desigualdade e a injustiça, fizeram delas um mercado e agora levamos a culpa? Será que realmente os tutsis na África mereciam ser mortos pelos hutus porque os pais passaram isso pros filhos, que passaram pros netos e bis netos e tataranetos ate se tornar intrínseco na ideologia daquele povo? Eu vejo que as pessoas estão desligadas disso tudo, e ai? Como faz? Ai vem à “televisão” te ensinar a como não ser assaltada, ou como evitar. E dizem : “não andem de bolsa, não andem de celular, não andem com roupas caras ou jóias, não andem de tennis, não andem de salto, não andem de bijuterias. Não andem de trem, não andem a pé, não andem só, não andem com a janela dos carros abertas, não parem no sinal, não dirija de madrugada, não ajude estranhos, não atenda o telefone, não conte com a polícia, não conte com justiça, não conte com o prefeito e com o governador que prometeu melhorar os índices de criminalidade de sua cidade e estado (é mentira, o imposto que você paga nunca vai ser direcionado a falta de segurança, porque ela também é lucrativa), não andem na chuva, nem na calçada...não façam, não olhem, não respirem, não confiem. Obedeçam a os ilustres Senhores que tão gentilmente nos prepara para o mundo que eles regem, porque é muito mais fácil tirar de nós do que dar aos outros, é mais fácil nos privar do que acrescentar a quem não tem tanta oportunidade assim. Porque os carros eles irão “Blindar”, se protegeram em verdadeiros “carros fortes”, compraram a segurança de condomínios fechados, sociedades anônimas, onde existem leis próprias, onde a justiça é feita do melhor jeito Filha da P... de ser. Mas não tentem tirar o direito de alguém achar que o que você tem na mão, ou na bolsa, ou no bolso vai deixar de ser seu. Porque vai. Eles vão vir e vão te mostrar, com provas contundentes que o que é seu vai ser dele, e você vai entregar, porque não tem outra saída. Então, não adianta. O que eu posso dizer, andem de celular, andem de bolsa, andem a noite, andem (a noite) na chuva (isso é até um conselho, não percam a oportunidade de caminhar a noite na chuva), confiem nas pessoas, amem seu semelhante, não sintam tanto ódio do ladrão que lhe assaltou, se nós não temos culpa, eles também não. E se sofrerem esse tipo de violência, que é muito ruim (experiência própria), não se assustem com o sentimento de abandono que vai aparecer por umas duas semanas em você, esse sentimento é real, e por duas semanas você vai conseguir saber, exatamente, o que ele sentiu a vida inteira.

5 comentários:

Kari disse...

Caramba!

"...esse sentimento é real, e por duas semanas você vai conseguir saber, exatamente, o que ele sentiu a vida inteira."
Perfeito esse final!

E sim, a violência está aí e, mesmo de alguma forma sendo nossa também a culpa, não há como evitar. Mas sabe que eu sempre digo pra não parar de viver por causa dela.
Uma prima chegou dos Estados Unidos e disse que não iria sair a noite e quase não sairia de casa por causa da violência, foi então quando eu lhe disse que isso era ridículo, pois, é fato que a violência existe e, querendo ou não (mesmo não sendo bom, claro) temos que aprender a conviver com ela e não podemos deixar de viver, e de sair de casa. É por isso que eu ando de celular, de bolsa, na rua, a pé, de carro, de madruga...

Excelente texto, viu moça???
Um beijão pra tu

No meu mundo. disse...

Eh amiga, nos privamos muitas vezes de sairmos por medo dessa violência generalizada!
seu texto foi mto real e expressa o sentimento de muita gente.
Bjo.

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, guria, adorei seu texto. Os desgostos de certos fatos, nos deixam caídos, sem enterdemos o por quê.
O capitalismo e suas regalias.
O ódio e sua vitória.

Aonde chegaremos com essas sombras?

Beijos querida!!!


Marcos Seiter

Alê Raposo disse...

Não sabia que tu tinhas blog... agora vou passar sempre aqui!!!

Beijos

Ellaehcarioca disse...

Que texto maravilhoso!!É a mais pura realidade."Os assassinos estão livres, nós não estamos..."É muito mais fácil nos aterrorizar e nos fazer,por medo, abrir mão dos prazeres e dos recursos que estão aí à nossa disposição para desfrutarmos,do que começar a cuidar do problema da violência lá na raiz. Ele começa exatamente onde vc terminou o seu texto(e por sinal com o desfecho perfeito), a sensação de abandono,o descaso.Estamos falando de crianças que cresceram sem oportunidade.Ainda não são marginais.Começa aí:Imagine a revolta de uma criança dessas criadas em comunidades carentes que mal tem o que comer,onde dormir,que cresce em meio à precariedade, exposta a doenças e à própria violência, em meio à disputas em nome do tráfico, e outras coisas horrorosas que eu mesma nem consigo imaginar.Imagine o sentimento dessas pessoas ao crescerem e começaremm a entender q forma vítimas reias de tanta desigualdade, má administração e egoísmo. Não estou defendendo nenhum deles, até pq meu primeiro sentimento ao ver noticias de assaltos, sequestros...é de ódio, mas realmente é preciso olhar com compaixão e entender o q vc mesmo falou. Eles viveram esse medo, essa falta de protelção, não tiveram alguém por eles a vida toda.E quem paga a conta somos nós!!