terça-feira, 17 de junho de 2008

Tiros em Ruanda (Shooting dogs)


Como tratamos o ser humano? Em que níveis de humilhação muitos são submetidos? Sem proteção por serem negros, ou por razões históricas que foram sendo mal ingeridas no decorrer dos séculos e que vira motivo suficiente para matar pessoas. Tudo tão incoerente, tão irracional que nada que eu disser, ou que eu pensar, vai conseguir explicar tudo que eu senti quando soube desse fato verídico que correu há uns 14 anos atrás. Soube sem querer. No domingo assisti ao filme “Shooting dogs”. O filme relata a história de um genocídio ocorrido em Ruanda, África, em meados de abril do ano de 1994. É tão impressionante e tão próximo, que eu não poderia deixar passar batido. Por tudo, pela crueldade como tudo ocorreu, pelo descaso da ONU, pela ferida histórica que os colonos Europeus deixaram na África e que veio sendo alimentada até então, e principalmente, pelas pessoas que estavam lá e que viveram tudo aquilo, e que morreram, enquanto nós estávamos aqui leigos e indiferentes. Digo que muita coisa mudou em mim. Logo após o filme eu sentia medo. Deu uma vontade de chorar e eu passei a me perguntar por que as pessoas se matam???? Meu Deus, nada é mais cruel do que você tirar a vida de outro, por qualquer razão que seja. Lembrei que nos negamos diariamente a situações de calamidade, crianças que comem nosso lixo, que dormem na rua e que não tem pra onde correr em dias de chuva e de frio. Às vezes eu reclamo tanto da vida, tanto, todos nós reclamamos. Muitas vezes de coisas tão irrisórias. Realmente, somos egoístas, não fazemos nada por achar que só podemos fazer um pouco, e achar que esse pouco não é nada, quando nada é exatamente o que muitas pessoas possuem. Na época do ocorrido existiam duas etnias que se dividiam na região, tutsis e hutus. Até o início da colonização alemã na região, as etnias tutsi e hutu viviam em relativa harmonia, no território que hoje é ocupado por Ruanda e Burundi. A partir da colonização sob o domínio alemão, e posteriormente belga, esses dois povos tiveram sua organização modificada. Em 1962, Ruanda tornou-se independente e a minoria tutsi ficou a mercê dos hutus. Em 1994 a ONU estava em Ruanda com a finalidade de “monitorar” a “paz” que fragilmente se aplicava na região. A qualquer momento poderia explodir uma guerra entre etnias. Quando o presidente hútu de Ruanda, Habyarimana, foi morto, após a explosão do seu avião, imediatamente a autoria do atentado recaiu sobre os tútsis. Pronto. A matança iniciou-se na mesma noite na capital Kigali. Os hutus saíram matando todos os tutsis (independente de serem velhos, mulheres ou crianças) eram esquartejados, e alguns submetidos a humilhações públicas. Mulheres eram estupradas, crianças eram jogadas contra árvores, e muitos eram abandonados agonizando nas estradas. Em pouco tempo mais de 800 mil pessoas haviam sido mortas. Não houve qualquer tipo de intervenção de órgãos de segurança mundial. As tropas da ONU nada fizeram pra evitar o massacre. Mas eles estavam lá, e só abrigaram 2.500 pessoas dentro da base que haviam montado, foi o máximo que fizeram, tardar os acontecimentos. Foi pedido auxilio para que aquelas pessoas pudessem ser resgatadas, mas nada foi feito. A ONU tentou abafar ao máximo o descaso que estava tendo com a situação e a falta de prioridade que estavam dando. Os hutus se colocavam em frente à escola, armados com facões, sempre ameaçando invadir Tudo isso na frente do exercito da ONU que simplesmente fingia não ver. Corpos eram jogados em frente à base para criar pressão psicológica e coagir os refugiados, os cachorros passaram a comer os corpos, uma visão de morte, de doença. Um terror constante, um mar de sangue já havia sido derramado e a única coisa que a França fez foi enviar ajuda para os Europeus e brancos que estavam lá refugiados. Após a retirada dos estrangeiros, a ONU que ficara lá como simples expectadora do espetáculo de horror que tomou conta de Ruanda, também se retirou, deixando pra trás mais de 2.500 pessoas, entre tutsis e hutus que não compartilhavam do genocídio, e por isso também estavam pondo suas vidas em risco, a ONU entregou a vida dessas pessoas a própria sorte, lavaram as mãos. Era certo a morte de todos. Logo após a retirada da ONU os hutus invadiram a base armados até os dentes cheios de ódio e de ânsia por matar aquelas pessoas, e esquartejaram todos.

5 comentários:

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, o ser humano perdeu o bem por si próprio. E quando isso acontece, não está nem aí para o próximo respira ao seu lado. SEMANA PASSADA DO LADO DA SANTA CASA DE POA, UM HOMEM, QUE ESTAVA COM ÓDIO DO DONO DO ESTABELECIMENTO, LARGOU UMA MALETA COM UMA BOMBA QUE EXPLODIU FERINDO TRÊS PESSOAS. O ódio a vida está aí, e quem faz isso? O próprio homem que é capaz de fazer maravilhas, mas ao mesmo tempo pode realizar alguma chacina.

Bah, pra ti quem tem preguiça pra escrever, se saiu bem nesta escrita. hehe

Beijos


Marcos Seiter

Kari disse...

É amore. A realidade é chocante, né? E a gente ainda consegue reclamar que o almoço não tá gostoso, que a calça não ficou legal ou que isso ou aquilo. Esqueçemos que nós temos tudo. E tudo do bom e do melhor. E ainda assim somos egoístas.
E, não espere ajuda de ninguém e de nenhum órgão. Eles querem ajudar, apenas aqueles que os ajudam e não "qualquer um"...


Ótimo texto, viu moça?
Beijão pra tu

*¢£@üD!NhA''' disse...

A falta de respeito nasceu na dominância do ser humano por tudo; que diferença faz ser mal consigo mesmo?

Não dá pra esperarmos dos outros o que temos dentro de nós.
E olhar de dentro pra fora é a ânsia mais injusta do ser racional, ele pensa nos próprios sentimentos e não aguça a sensibilidade para outros.
É egoísta sem conhecer suas reais estabilidades.

A reforma começa dentro de si; é na essência que se constrói.

''Receio que os animais vejam o homem como um semelhante que perigosamente
perdeu sua sadia razão animal - como o animal delirante, o animal ridente,
o animal plangente, o animal infeliz.''

(Nietzsche)

Cuide-se.

No meu mundo. disse...

Amiga, não cheguei a ler seus texto mas lerei assim que der.
Neste exato momento estou indo almoçar.
Só queria dizer que também criei um blo.
Dá uma passadinha lá depois.
Bjo.

Carlos J. disse...

viva o governo americano.