terça-feira, 1 de julho de 2008

Ontem




Eu tinha 11 anos.
Nunca quis bonecas.
E se as mesmas já eram abandonadas por mim aos dois anos, aos onze passei a fazer pequenas cirurgias em suas cabeças, arrancava-as dos pescoços e lhes enchia de qualquer coisa, qualquer coisa colorida que fizesse aquelas bonecas (burras) terem algo pra pensar. Me incomodava o fato de não ter nada por dentro a não ser um punhado de cabelo amarelo.


Queria jogar vôlei.
O auge da minha paixão fulminante por Giovane Farinazzo Gavio. Passava as madrugadas de jogo acordada só pra vê-lo em quadra, era uma paixão torrencial. Não era possível que ele não fosse se apaixonar por mim, aliás, ele já era apaixonado, eu tinha certeza que era só nos encontrarmos e assim que nos olhássemos, tchuaaaaa... Tudo mais ia ficar em câmera lenta. Andaríamos a o encontro um do outro e....tchuaaaaa. Tudo isso embalado ao som de Gary Barlow (so help me girl).
Será que alguém lembra dessa música?
“So help me girl, you've gone too farI

it's way too late, to save my heart
The way it feels, each time we touch
I know I've never been so loved…”
(ainda bem que o tempo muda a gente)


Queria fazer logo 14 anos.
Exatamente, não queria 15, ou 18. Queria 14. As garotas mais legais, que eram da 8ª série, com todos os amigos mais bonitos e divertidos tinham 14 anos. (achava oitava série o máximo. Porque? Não sei.) Era impressionante. E eu precisava chegar aos 14. Tudo ia ser perfeito, idade perfeita, amigos perfeitos (?) e daqui pra lá sem dúvida, eu estaria pelo menos noiva de Giovane. Quando chegou finalmente o tão esperado aniversário, percebi que tudo era só um ponto de vista, que tudo é, realmente, um ponto de vista. Cheguei a poder estar em contato com aquelas que tanto admirei um dia, garotas tão lindas coloridas, colossais. Mas o tempo não tinha passado para elas, elas continuavam iguais, e eu senti uma certa decepção com isso. Será que eu tinha me confundido? Elas não eram tão "assim"? Comecei a vê-las como as bonecas que tanto repudiei aos onze anos, sem dúvida eu já tinha abandonado o ramo das cirurgias neurológicas, mas até que deu vontade de abrir umas exceções. Eu não queria mais ter 14 anos, era uma idade que demorava muito a passar.
E ah... o Giovane? Não. Nem ligava mais pra ele. Ele tinha casado até, e eu? Paquerava o professor de Ed. Física. O que não tornou em nada a minha vida mais fácil. Hoje eu morro de saudade das minhas antigas vontades, dos meus desejos de poucas pretensões. Eram desejos que só cabinham a mim, eu não tinha que esperar dos outros pra que se realizassem, inclusive porque eles já eram reais. Fantasias reais. É muito bom recordar esses momentos.

5 comentários:

No meu mundo. disse...

Nossa cabeça é um turbilhão de anseios quando mais jovem.
Depois que a gente cresce percebe que isso tudo era apenas daquela fase e que tudo passa.
Bjos.
Amei o post.

Kari disse...

Amore, adorei!!!!!
Já eu sempre brinquei de bonecas, até os doze anos...
E quanto a essa decepção, também tive... Queria chegar ao primeiro ano, pois achava que o pessoal era muito legal, mas, quando vi que aqueles que fizeram a sexta série estavam no primeiro do mesmo jeito, fiquei super decepcionada... Affff
Me apaixonei por Zac dos Hanson, mas eu não falava inglês... Depois por Bruno do KLB, mas ele era muito alto... Eu gostava e colocar impecilhos entre nós, pra não me decepcionar tanto...

Obrigada por me fazer lembrar dessas coisas...

Beijão

Antônio disse...

Até os 18 anos, eu sempre quis ter uma idade diferente da que tinha. Dos 18 em diante, ocorre o inverso; seguidamente, me pego querendo voltar aos 17. A única diferença é que para trás não dá pra voltar, restando apenas exercitar o saudosismo em meus textos.

Beijo!

amália :) disse...

quantos desejos e sonhos impossíveis, quanta rebeldia, quanta coisa! hehe. adorei aqui. bjo :*

Alê Raposo disse...

Erica, uma graça o teu texto.

"...ele já era apaixonado, eu tinha certeza que era só nos encontrarmos e assim que nos olhássemos, tchuaaaaa..."

Pois é, ele fez com quem eu ficasse pensativa, lembrando da minha infância...
Adorei