sexta-feira, 4 de julho de 2008

A porta.

Era confusa. E confundia todos que se aproximavam. Não sabia como ser legal o bastante, ou amiga suficiente. Não sabia o que esperavam dela. Pobres verdades ou suntuosas mentiras? Na dúvida...
Era assim, mas não porque quisesse. Mas por se achar pouco interessante. Gostava das pessoas, queria todas por perto. Talvez ai estivesse seu maior erro, não adianta querer todos. Todos nunca são de ninguém. Despertava em pouco tempo sentimentos nobres. Com igual velocidade, os destruía (ainda que não soubesse como ocorria tal fenômeno). Tinha pensamentos perturbadores, e atitudes que não condiziam com o que achava certo, mas de repente estava lá, cometendo seu crime “hediondo”. Entregava-se a paixões e por isso vivia ao julgamento dos becos. Uma inexplicável superficialidade que encontravam em sua conduta. Como se de algum modo ela precisasse justificar ao mundo seus procedimentos. Não, não precisava. Só que começou a parecer que qualquer passo que desse teria que calcular, numa medida fabulosa, todas as conseqüências. Então, num súbito, passou a sentir “culpas”.

Faltava-lhe amor próprio, não gostava do que via no espelho. A falta de alto estima a fez se perder, se tornou uma preza fácil e então, passaram a arrancar-lhe pedacinho por pedacinho. Tiraram-lhe a roupa. E quando já não havia mais roupas para tirar? Tiraram-lhe a pele. E quando já não havia nem mais unhas para tirar? A dilaceraram. Deixaram todos seus sentimentos expostos, largados no chão. Queriam então condenar a sua alma. Porém, nunca tentaram decifrar suas angústias, questionar os seus defeitos, resgatar suas virtudes e devolver-lhe o respeito. A condenaram. Pronto. Era seu fim. Conheceu então, o que lhe faria companhia por algum tempo. Tempo esse que nem ela mesma saberia. Um dia desses qualquer, entrou, invadiu a vida dela de silêncio, de lágrimas, de esperas incansáveis e desesperanças. A solidão permaneceu por muito mais tempo que qualquer pessoa normal suportaria. Ninguém soube o quanto doeu, o quanto demorou para formar as cicatrizes, e ainda nem imaginam que muitas continuam feridas abertas. Longe de cicatrizar. Ela seguiu. Sozinha saiu juntando os estilhaços e reconstituindo seus pedaços. Reformou-se. O que a salvou? Seus pensamentos perturbadores. Eles nunca a abandonaram. Permaneceram lá. Firmes. A diferença é que o tempo lhes deu uma nova roupagem, mostrou novas perspectivas, novas cores e o principal, a porta. E ela viu o tamanho do mundo e aprendeu a lidar com “valores” e “medidas”. A solidão de vez em quando volta (do seu modo único e triunfante de surgir do nada) só que agora para uma breve visitinha. Elas enchem a cara com algum etílico, e pronto. Logo após vai embora à peregrina. Se alojar em algum coração desavisado.

4 comentários:

Kari disse...

"Bah guria"....
Que forte! Que real! Que lindo!!!

O maior amor do mundo, é aquele que está em nós, é nosso e é por nós mesmos... Sem ele, é impossível amar quem quer que seja e fazer alguém feliz...
É, acho que a solidão só me faz visitas breves, mas, poucas vezes, nem tão breves assim...

UM beijão pra tu

Adriano Veríssimo disse...

Puxa...

Que coisa...

Sabe quando você tentando balbuciar algumas palavras e não consegue?! É assim...

Bonito, mas com pontas de dor no peito, tem esse texto. Não sei se e autobiográfico, mesmo não sendo, imaginei, realmente, uma menina-mulher assim...Nossa...

rs

Belo texto Coração!

Ahh e obrigado pela visita...



Beijin

Adriano DiCarvalho disse...

Ual! Que forte!

Me calei enquanto lia e calado fiquei. Tanto que só consigo dizer... Parabéns! Pelo texto, claro!

Palavras de um mundo incerto disse...

Guria, a solidão é uma coisa chata pra mim. Mas ao mesmo tempo inspiração.


Beijos querida!!!



Marcos Seiter