sexta-feira, 11 de julho de 2008

A primeira vista...


Tava feliz. Era visível demais. Todos os sintomas: rubor do rosto, sorriso nos lábios, brilho nos olhos, coração acelerado... Se não era a tal da felicidade que a tomava por inteiro, então sofrera de alguma moléstia qual não sabia ainda identificar.
Quando atendeu aquela porta, nunca imaginou que sua vida ia mudar do jeito que mudou. Não era possível que existisse tal beleza no mundo! Arrebatadora! Como pode? Foi só olha-lo uma única vez, em instantes, parecia até que o mundo tinha outra cor, e que todos tinham sumido de sua superfície. Surgiu uma neblina que saiu cobrindo tudo que não era ele. E o silêncio... Seus pensamentos se calaram. Cadê o som do mundo? Mas pra que som num momento desses? Queria apenas contemplá-lo. Estava diante do mais alto grau de perfeição. Prestes a sentir
o que há de mais elevado nos sentimentos.
Ele entrou e a olhou também, não acreditava que aquilo estava acontecendo, ele a olhava com interesse! Será que ele sentiu o mesmo? Como se estivesse sido levado para uma outra dimensão? Adiantou-se para falar com ele, precisava fazer alguma coisa. Mas o que? Tinha que ser algo imediato, que acompanhasse o tempo, que obstinado passava sem nem observar os dois ali, parados. Que agonia... Começou a apressar os acontecimentos. Ainda nem sabia do tempo guardado pra eles, iria ser um tempo só deles. Tempo esse que estava pra chegar. No momento em que foram apresentados, que tocaram as mãos, eles não estavam apenas se cumprimentando, estavam selando uma história. Inaugurando um sentimento, o maior que ela jamais sentiria. Foram os “dois beijinhos” mais doces que ela sentiu na vida. Dois beijinhos com sensações de primeiro beijo: moleza nas pernas, peso nas pálpebras, frios na barriga, arrepios na nuca, sentidos aguçados... Enfim. Ninguém tinha sido agraciado com aqueles beijos, somente ela, e ainda no cantinho da boca, do tipo daqueles que quer mais que a pele. Querem a língua, a saliva e o calor. Como era previsto ele foi rápido, disse o que tinha a dizer e logo partiu.
Claro que não iria acabar por ai.
Falaram-se por dias, meses ao telefone Eram conversas intermináveis, engraçadas, sérias, românticas, de saudade, de amor, de futuro. Tinham sintonia, nunca se calaram por falta de assunto. Eles poderiam falar do mundo inteiro e ainda assim teriam mais alguma coisa a se dizer. Ligavam-se todo o momento até que um dia resolveram se reencontrar. Ele foi a sua casa na hora exata prevista. O coração dela parecia que iria parar de tão descompassado. Tinha fotografado aquele rosto na memória, era como se nunca tivesse passado um único dia sem vê-lo. Não era uma lembrança de meses, mas uma lembrança de minutos atrás. Como poderia sentir algo assim? Era tão maior que nem nome existia pra dar. Beijaram-se... Perfeito. O encaixe, o movimento. Tudo tão sincronizado, merecia aplausos. Permaneceram juntos por algum tempo. Entre beijos, carinhos, beijos, conversas, beijos, olhares apaixonados, beijos, beijos, beijos...
Aqui começa seu declínio. Do cume, ao total absoluto abismo. E ela se jogou, porque não tinha outra escolha. O que iria fazer com tudo aquilo? Era um sentimento estranho. Não sabia como controlá-lo. E o danado parecia ter vida própria.
No dia seguinte ele a ligou. Normal. Todos os dias, até então. O que havia de diferente era sua voz, o seu jeito de falar, não havia mais encanto, nem saudade, nem amor. Não era ele... Impossível. Custou a acreditar naquilo. Ele dizia que era o fim. O fim? Mas nem havia ainda começo. Era uma brincadeira, só podia ser. Tentou torna-lo a realidade, pediu, por favor, que parasse com aquilo. Não era engraçado, era devastador e doloroso demais. Não iria agüentar. Tudo em vão, estava irredutível, não a queria mais. Ela não acreditava, mesmo com todas as evidências. Precisava saber o que tinha feito de errado, ainda que não tivesse feito nada. Apenas se enganado, errou de príncipe encantado. Sofreu muito, dias de lágrimas perdidas, de angustias. Continuou a procurá-lo, e acabou entrando demais naquele mundo nefasto de dor e desespero. Nem sentiu, mas já estava beirando a loucura. Passou a segui-lo aonde fosse. Queria estar onde ele estivesse. O cercou por todos os lados. Continuo a telefoná-lo. Muitas vezes nem falava nada, só queria ouvir um pouco a sua voz. Isso a confortava de alguma maneira. Ele nunca parou pra explicar-lhe nada e passou a se irritar com aquela situação, mas seu comportamento foi lamentável. Além de ajudá-la, passou a humilhá-la. Podia ser onde fosse à frente de quem fosse, para ele, ela era apenas uma coitada, psicopata. Não achava que tivesse culpa alguma. Afinal, ele apenas não a queria mais. E isso era o bastante.

Foi longo esse período, praticamente interminável. Os dias nunca demoraram tanto pra passar, nada, nunca tinha permanecido por tanto tempo assim. Não conseguia se controlar, apesar de todo vexame que passará, ainda o procurava. A boca que tanto desejou, da pessoa que tanto amou, agora não tinha mais palavras doces para dizer, nem beijos infindos pra dar. Agora dessa boca só saiam impropérios ao seu respeito, frases secas, palavras pungentes...
Acho que ela nunca superou de verdade toda a desventura que passou. Só que a vida segue seu ciclo, e a dela não foi diferente. Os anos que demoraram tanto a passar, finalmente passaram. E dizem por ai que depois da tempestade vem a bonança... É talvez tenha vindo mesmo. Dez anos se passaram e eles tiveram a oportunidade de se encontrar. Muita coisa mudou nesses anos. Não estavam mais diante dos jovens sonhadores que haviam conhecido no passado e ele não conseguia mais ver dentro do olhar dela, não era mais tão nítido como foi um dia. Chegaram a conversar, depois de todo esse tempo, e numa concordância natural, preferiram esquecer o passado. E parece que esqueceram mesmo, pelo menos ela ainda sentiu, lá no fundo do peito, uma força se movendo, algo querendo ressurgir, e por incrível que pareça, não era odio, nem desprezo, ao contrário, todos esses anos que passou processando o ocorrido, não deixou que a magoa e o rancor invadissem seu coração, fez uma força que não era desse mundo para entender as razões dele. E entendeu, do jeito dela, ainda que fosse qualquer razão. Não falaram muita coisa. Ela viu no beijo que ele lhe deu na testa, um pedido de desculpas, e ele ouviu o sorriso dela concordar com os olhos dele, e esse diálogo permaneceu ali por alguns instantes... Sentia que o tempo, que o tempo tinha reservado para eles (para ser um tempo deles) não tinha acabado ainda. Na verdade, nem tinha começado.

8 comentários:

No meu mundo. disse...

Amiga, qndo eu era mais nova eu sonhava em me apaixonar à primeira vista ou o menino se apaixonar por mim. Besteira né!
Depois q cresci vi q isso nãoe xiste, o q existe é o amor e ele pode acontecer a qualquer momento.
Depois de anos, em uma hora, em um dia.
Ele sempre aparece.

Dayane disse...

Ahhh,que post triste!Pior é que eu já passei por isso menina,duas vezes!É fogo viu!Sofri de mais,mas a maturidade vao nos modificando,nos transformando.Alias,td se tranforma e o fim é apenas o recomeço,nao eh verdade?Bjo

Kari disse...

Caramba Érica!!!
Começei a ler e nem imaginava quão grande era... Mas acabei me deliciando e sofrendo na história que nem percebi tamanho nem nada...

É, algumas hitórias não tem fim. Outras, simplesmente acabam...
Mas ei... Tenho que confessar que, não apenas acredito no amor a primeira vista, mas até antes dela... De verdade!

Beijão pra tu e
saudades!!!!

O Equilibrador de Pratos disse...

Excelente blog. Acho que pode rolar uma interação bem legal entre nossos blogs: www.oequilibradordepratos.blogspot.com

- O Equilibrador de Pratos -
O que os homens pensam?

Relacionamentos. Teorias. Discussões. Comentários. Mulheres. Sexo. E pratos equilibrados em varinhas. Bem-vindo à vida real.

3 amigos (B. Sacamano, Hannibal e Jurandir, pseudônimos, claro) que resolveram fazer um blog tratando de assuntos que abordam o "Universo Homem + Mulher = Relacionamentos". Retrata todos assuntos citados acima, com textos bem escritos, humorados, ácidos, sarcásticos, irônicos e, sinceros ao extremo. Vale dar uma conferida. E que atire a primeira pedra quem não se identificar com algo. E por que o nome "O Equilibrador de Pratos"? Entre no blog e descubra. Será um "soco no rim". No bom sentido, é claro.

O Profeta disse...

E este Sol impõe a claridade
Pôs no celeste a Lua a bocejar
Perdi a conta das estrelas no céu
Ergui-me em bicos para as contar


Voa comigo sobre as emoções

Boa semana


Mágico beijo

Alê Raposo disse...

Hummm, belo texto Erica. É sempre um prazer ler o que tu escreves. Porém, não acredito no amor à primeira vista. O amor é algo muito intenso, grande demais pra ser sentido por qualquer um e em qualquer ocasião e mais, num primeiro contato.

instantes e momentos disse...

muito bom esse post, muito bom teu blog. Parabens, gostei muito de vir aqui. Foi bom.vou voltar com certeza.
Maurizio

Luanda Moura disse...

Amiga, que bom te encontrar aqui!!! Vizinhas, mesma faculdade, mesmo curso, mesma sala, um blog pertinho do outro! =)
Amei os seus textos!!!!!!!!!!
mil beijos