quinta-feira, 28 de agosto de 2008

No meio do deserto...

Pensou que precisava de terapia. Não. Não se entendia.
Porém entendia todos, e todos sempre foram bastante convincentes. Não lembrava de ter desconfiado, algum dia, da verdade de alguém. Afinal, eram verdades. Certo? E já que não há como provar o contrário...
Nem o queria fazer também. Pra que? Já havia abstraído certos tipos de curiosidades.
Foi tímida sim, um dia foi. Deixou de ser... De repente. Ou talvez continue sendo, mas é que é muita coisa que a gente precisa ser antes de ser tímido. As coisas sempre são muito nuas, muito cruas. Na há espaço pra tímidos no mundo. Pra água ser gelo, é preciso um processo. Demora alguns minutos, mas um momento ela fica lá, dura e gelada. Entretanto, é só por uma falta de ambiente, ela volta a ser líquido de novo. Nunca vai ser gelo pra sempre, porque ela é água, e o estado dela não é sólido.
Não julga ninguém. As pessoas não precisam ser julgadas, elas já carregam o triste fardo de serem pessoas. E ser pessoa, e pensar (logo existir) não é tarefa das mais fáceis. Não precisam concordar, não quer mudar ninguém. Só espera o mínimo... Do mínimo.
Pergunta-se porque que é tão fácil não se colocar na pele do outro. Tem medo de um dia se tornar alguém assim, que não enxerga à dor, a angústia, a vergonha estampada num rosto aflito qualquer, ainda que esse mesmo rosto não lhe seja semelhante, ou não lhe traga recordações, seja só um rosto perdido. Mas aflito. E não poder ver nem sentir. Pois somente quando sente, ela existe. Porque quando pensa, nem percebe. Pensamentos vêm e vão, nunca permanecem por mais de dois minutos. Só quando sente, ela existe.
Apenas tinha esquecido como era o sentimento que acompanhava a timidez. Trouxeram de presente, coberto por um terrível laço de fita... Vermelho.
Disseram uma vez que água mole em pedra dura... (voltando ao estado líquido)
A tiraram do freezer e a colocaram no meio do deserto. Estava lá, derretendo novamente.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Bem sabes.


Noite
De vazio.
Pra quem vens?
O que procuras ao me afrontar?
Porque não me trás o que espero?
Não me encha de dúvidas, noite.
Tu bem sabes o que preciso...
Que me mostre a saída
Da tua escuridão angustiante.
Amedronta-me, ao invés
De acolher-me na tua calma habitual.
Não me dês mais do que preciso,
Sou cega perante os teus ardis.
Só te peço uma coisa noite...
Se não consegues se afastar de mim,
Apenas abstenha-se de fazer-me o mal.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mais um dia na vida de João.


Na falta do que fazer levantou-se. Caminhou até a janela, não costumava abri-la com tanta freqüência, mas nesse dia estava tudo um pouco mais sufocante que de costume. Observou a rua e seu movimento cotidiano, repetitivo e típico do horário, 12h30 da manhã. Pessoas passando, filas em restaurante, buzinas frenéticas apitando numa desarmonia incessante, crianças cansadas e suadas que acabavam de largar das escolas. O tio do picolé, o tio do cuscuz, a tia do doce japonês, cada um gritando aos berros todos os atributos de seus quitutes. Era realmente impressionante a potência vocal dessas pessoas. Pra qualquer buzina, em meio ao transito da Avenida Paulista, ficar com inveja. Tanta gente, incontáveis, fora todos aqueles que sua vista não poderia alcançar. Nunca tinha parado pra observar tudo àquilo de fora, como um espectador. Rápido demais. Sentiu-se cansado só do tempo que permaneceu ali vendo a cidade em movimento, então, resolveu que já estava bom. Tornou a fechar a janela. Nesses momentos ele lembrava porque não a abria tantas vezes, pra se privar do caos e do tráfego. Não queria que aquela confusão entrasse e lhe invadisse todo o espaço, afinal, a casa não era muito grande, nem muito luxuosa, mas possuía uma ótima acústica, inclusive foi o ponto forte pra ele adquirir o imóvel que era bem no centro de um bairro popular... O silêncio.
Ainda estava de pijama, muito confortavelmente sentou-se em frente à TV, em seguida desistiu, era muito pra cabeça dele assistir a poluição que deixara pra fora da janela, só que televisionada. E agora? Não sabia. Deitar e tentar dormir novamente? Não. Ler também não, já não havia um único livro o qual não houvesse lido.
Só nesse tempo de indecisão já haviam passado duas horas, 14h30. Foi à cozinha e preparou um pequeno lanche. Não havia empregada e ele morava só, era muito raro dia com almoço, no máximo um macarrão instantâneo com um ovo mexido, mas nem isso ele estava disposto. Era melhor um pacote de biscoito e uma coca-cola.
Mas duas horas se passaram, 16h30. Não sentia mais fome, apenas uma gastura incomoda, uma queimação e um pouco de refluxo. O almoço não lhe caiu muito bem. Foi atrás de um sal de frutas, uma coisa em sua casa não faltava... Remédios. Pra tudo, dores de cabeça, no corpo, no dente, na barriga e não faltaria o do estômago. Claro.
Acalmado uma vez, o estômago passou a roncar. – o que queres? – perguntou. Porém, sem respostas. Não era possível que fosse fome, acabou de comer um pacote de biscoito. – problema é seu. – retrucou.
Duas horas depois, 18h30, voltou à janela. E... Lá estava, perturbadoramente, toda a tão temida confusão urbana, instalada em frente a sua casa. – meu Deus. Dessa vez resolveu não assistir o espetáculo angustiante.
Duas horas se passaram, resolveu ceder às solicitações mudas da televisão. Já não tinha TV a cabo, nem internet, nem telefone (a não ser um velho celular pré-pago). Desde o dia que ficou desempregado deixou se abater por uma enorme desesperança. Passou a viver assim, deixando o dia passar por si só. Passando por seus olhos como filme de sessão da tarde, estava lá, mas ele não via. Resolveu assistir o jornal... E mais duas horas passaram, agora já eram 22h30. Não havia mais barulho tentando penetrar pelas brechas da porta, só havia o mais puro e inquietante silêncio. – cadê todo mundo? – perguntou-se. Tirou o pijama, pensou em banhar-se, mas desistiu, já não havia ducha quente... Pra economizar energia.
Deitou-se. Ali acabava mais um dia do mais absoluto tédio. Entretanto, antes... Verificou a janela.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Tempo

Engolis vento
Enquanto eu...
Atropelo o
Tempo.

Corro, faço,
Espero e te
Digo, mas
Tu continuas
Inerte, parado,
Estarrecido
Comigo.

Pares de engolir
Vento,
Escuta-me,
Fala-me, te
Movimenta, corre
E acompanha o
Tempo.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Silêncio.

- Ele chegou!

A mãe dela deu um grito.
Ela já estava pronta. Era uma família de poucas posses. Não tinha tantas roupas boas pra ocasiões como aquela, mas se fez bonita como pode. E não deixara de estar realmente. Quando o viu lá, a esperando.

- Desculpa a demora.
- Nada, tenho certeza que valeu a pena cada minuto.

Ela sorriu. Foram para o carro, não estavam a sós como ela imaginou. Havia um rapaz dirigindo e uma moça ao seu lado, eram namorados, pelo menos era o que parecia. Ele a apresentou.

- Essa é minha namorada.

Então todos se olharam e sorriram. Seguiram. Ela inda não sabia pra onde iriam, não tinham combinado nada em especial, apenas sairiam àquela noite. Pararam num barzinho. Bem charmoso por sinal. Novidade pra ela, que ainda não entendia tanto de bares assim. Saia pouquíssimo, e bebia menos ainda.
- Vai querer beber o que?
- Uma coca-cola com gelo e limão.
- Coca-cola? Não. Vou pedir uma caipirinha pra você.


Ela aceitou. Conversaram muito, os quatro ali. E assim foram noite adentro, ela nem sentiu, mas já estava tomando a sétima caipirinha, que ele, tão gentilmente, fazia o favor de repor assim que estava por terminar, de um jeito que parecia sempre que era o mesmo copo que nunca acabava. Uma caipirinha mágica, com poder de alto-preparação.

- Vou ao banheiro. Licença.
- Opaaaaa...
- hahahaha... acho que eu bebi um pouco demais.
- Vamos pedir a conta, enquanto isso eu te acompanho e te espero a porta do banheiro.
- Certo.
........
- Pronto. Podemos ir.
- Me segura que ta difícil andar tropeçando no meu pé.
- To segurando...

Entraram no carro e ela logo se ajeitou em seu peito. As pálpebras já não lhe obedeciam, estavam querendo fechar a todo custo. Então ela dormiu.

- Ei, ei...acorda.
- Hum....que foi? Onde a gente ta?
- A gente ta junto. Isso ó que importa né?

Então ele a beijou. Seu beijo tinha certa violência que ela ainda não havia conhecido. Um beijo que a invadia. Não era bom. Não para aquele momento. Estava num lugar estranho, nunca havia estado lá. Estava enjoada, tonta, nem conseguia organizar as palavras, nem muito menos pronunciá-las, só queria que ele parasse com aquilo, mas não conseguia dizer. A bebida tinha absorvido suas energias.

- Vem cá. Deita aqui.... Vem.
- Não precisa empurrar, eu não quero deitar.
- Vai deitar sim.
- Para....

Ele tirou sua roupa. Agora ela sentia medo. Medo, enjôo, tonturas e muita dor. Tinha 16 anos. Nunca havia estado com um homem naquelas circunstancias. Só havia tirado uns pequenos sarros, no máximo. Porém o medo a fez parar de relutar, ele se tornava cada vez mais violento. Ela o conhecia? Quanto tempo passa pra se descobrir a verdadeira face de uma pessoa? Será que alguém consegue enganar outro por tanto tempo? Eram perguntas que ela fazia enquanto ele a dilacerava, abria seus caminhos com a força de um trator. Sem respeitar o momento dela. Não o conhecia. Estava diante de um estranho nu, que a possuia.

- Ai, ai... por favor, ta doendo...aaaa.
- É assim mesmo, fica caladinha que a dor melhora.
- .....

Eram segundos que mais pareciam séculos. Como o tempo demora a passar nesses momentos. Enquanto ele saciava sua fome nociva e selvagem de animal, ela chorava. Chorava a alma dela, os sonhos, os planos de como aquela noite seria um dia. Um castelo de cartas, se desmoronando aos seus olhos. Ela chorava aos soluços. E pareceu que dentro daquele mente pérfida e doente, através de uma surdez ferina e insensível, ao invés de sentir mal com aquela situação, ele a ouvia gemer de prazer. Então... gozou.

- aaaaaaaaaaaaaaaaaaa....
- ...........
- Quer tomar um banho?
- ........................
- Vai se vestindo que quando eu voltar do banho te deixo.
- ...............................

Ela não conseguia mover-se. Estava a sentir uma dor que não conseguia exprimir. Chorava lágrimas infindas. Não conseguia se controlar. Não tinha forças. Ao voltar ele a encontrou na mesma posição. Ela não tinha se movido, era como se não sentisse as pernas, os braços, o corpo. E, de repente, como em um ato extintivo de compaixão, ele se pos entre as suas pernas e lambeu seu sexo. Ela não se movia, nem sentia nada. A língua dele parecia sal em ferida aberta, mas ele permanecia lá, e assim por alguns minutos. Então se pôs de pé e a ajudou a levantar e se compor. Era sem dúvida uma mente doente. Ela já não tinha dúvidas, mas não queria atiçar aquele ser que adormecera em seu infortúnio, nem o olhava nos olhos.
Permaneceu calada todo caminho de volta, o seu silêncio e suas lágrimas que não cessaram, criou um atmosfera de velório no carro, onde o casal de namorados permaneciam. Eles foram buscá-los de dentro do seu maior pesadelo , e era provável que houvesse a levado também. Eram cumplices do crime.

- Pronto. Chegamos.
- ........................................

- Pegue sua bolsa.
-..................................................
- Espere, deixe-me acompanha-la até a porta.
-..........................................................

- Não dirás nada?
-...........................................................................

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Diferentes semelhantes

Curiosa a força de atração entre as pessoas. O que faz nos cativarmos de alguém? Sempre achei que os amigos eram amigos porque eram parecidos, seus gostos, suas opiniões. Achava que era a compartilha dessas semelhanças que mantinha as relações, fossem elas qual fossem. Mas não, estava errada. Sem dúvida é muito bom ter alguém parecido ao nosso lado. Eu mesmo tenho uma amiga, que a nossa sintonia é impressionante. Uma fala a outra entende, até sem falar, só olhando já entende. Fora pensarmos muito parecidos e gostarmos de, quase, as mesmas coisas, ainda temos defeitos e manias iguais. É uma coisa sem razão de ser, sem explicação e muito bom mesmo, eu adoro. O mesmo jeito de rir por nada e de achar tudo infame. Questionar as dificuldades e rir no final, porque simplesmente não a o que se fazer.

Também tem a minha investidora, que arrisca até o ultimo centavo em investimentos, guerreira mesmo. Uma hora quer se dedicar à moda, não deu certo? Publicidade, não deu certo? Gastronomia... Diferente de mim, que tenho medo das coisas darem errado, e eu perder tudo. Ela não, pode até perder, mas e daí? Depois ela consegue de novo. Só sou a fã numero um dela. Essa é irmã. A gente concorda e discorda na mesma proporção e não tem tempo que apague nossa admiração, mútua.

Houve uma outra que era inseparável, vivíamos juntas em todos os momentos, não sei se éramos tão parecidas assim, mas tínhamos uma sintonia enorme e desejos de felicidade e amor. A companhia mais agradável era a dela, porque ela era calma e triunfante ao mesmo tempo. Ninguém nunca tinha conseguido esse feito antes, e sempre (na maioria) saiamos apenas nós duas. E digo aqui, era divertidíssimo. Mas nossa amizade não foi forte o suficiente pra superar algumas tempestades que surgiram no nosso caminho. Foi ai que eu percebi que certas vezes não são as semelhanças que pesam mais, outros sentimentos que surgem que dão outras perspectivas, é que sustentam as bases das relações. Tive a oportunidade de conhecer encantadoras criaturas, muito diferentes de mim, mas que me conquistaram completamente. São hoje amigas que guardo comigo pra sempre.



Uma é chorona, braba, sentimental demais, uma graça. Fica vermelha quando ta chateada e morre de rir das minhas palhaçadas. Uma criança quando eu a vejo, mas com pretensões de gente grande e sonhos de infinito. Diferente de mim ela passa dias pra perdoar uma falha, por menor que seja, e por mais que você explique, ela não acredita. Mas somos iguais quando planejamos nosso futuro, queremos coisas parecidas. Diferente de mim que bebo que só, ela toma dois copos de cerveja e fica toda ouriçada. Eu morro de rir.

Igual a outra amiga querida, que tive o prazer de conhecer esse ano. Admirável. Fomos um sábado desses, sozinhas, pra um barzinho, e eu achava que ela não iria. Diferente de mim ela adora ficar em casa, gosta do clima familiar, de ficar esparramada em um confortável sofá, viajando em pensamento e nos livros que tanto gosta de ler, já eu adoro sair, viver o movimento da rua, ver as pessoas passando, conversar, rir em mesas de bar ou em casas de amigos. Não importa o lugar. Diferente de mim que bebo que só, ela toma quatro copos de cerveja e pensa em dormir, boceja e tudo mais, enquanto eu to no auge, a fim de falar mais, de beber mais, falar mais... Mas ela fica lá agüentando minha tagarelice e ainda da opinião. Agora somos praticamente gêmeas quando a questão é odiar Luciano Huck, Angélica e Faustão. Nisso a compatibilidade é de 100%.

E têm outras também. A que sonha em ser mãe, diferente de mim que sonho em viver viajando e conhecendo as excentricidades do mundo. Que é carinhosa até dizer chega me trata tão bem. Sempre sorri quando a gente se olha no meio das aulas. É a melhor companheira de aula que alguém podia ter. Eu fico tagarela falando e ela nem reclama, mesmo quando esta tentando prestar atenção. Fora que sempre desce comigo pra gente comprar docinho.


E tem a minha mais recente aquisição, uma “flor” que eu achei por ai. A gente se estranhou viu? Ela me achou chata pra cacete e eu a tratei péssimo. Eu costumo ser assim, chata a primeira vista. Todo mundo me diz isso. Mas é verdade. E como eu a achei insuportável foi que eu caprichei mesmo. Hoje a gente morre de rir de tudo isso. Somos muito parecidas, tirando o fato que eu falo sem parar e ela poupa muito seu latim. Mas só somos simpáticas quando gostamos, somos ciumentas, odiamos cobranças e odiamos uma DR. Entendo ela e ela me entende. E nem parece que é tudo tão recente.

Por isso hoje eu penso diferente. O que faz uma amizade ser uma amizade, não são as semelhanças, nem as diferenças. São a admiração e o respeito que temos por ambas. Cada um em seu espaço e nunca existira a fusão entre as partes. O bom mesmo é saber que existem essas pessoas queridas pra encherem a vida da gente de alegria e de sentido. Porque os amigos são muito mais que amigos, são irmãos escolhidos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Novidade


O tempo faz verdadeiras mágicas. Ando me reencontrando com alguns antigos conhecidos que com o passar deste “Voraz ilusionista” foram se perdendo por ai, ou eu que fui me perdendo deles. Enfim. Não sei, só sei que fiquei surpresa como eles tinham mudado. Pra melhor, bem melhor. Agora eram pais, mães, magros, todos seguindo suas vidas, cheios de novidade, de planos. Então eu pensei: “eu não mudei nada, eu to igual”, e isso me fez ficar péssima. Eu sei que cá pra dentro ta tudo muito diferente, deixei de ser muita coisa, egoísta, mentirosa, compulsiva, indecisa (este ultimo principalmente), imparcial. Descobrir que tudo tem dois lados, seja isso bom ou ruim, não importa. Você tem que escolher um. Também deixei de ser depressiva para os meus amigos que tanto me reclamavam isso. Deixei de cobrar dos outros e passei a cobrar mais de mim e isso tudo eu to achando ótimo, perfeito. Descobri uma sinceridade espontânea e também que falar o que acha sem maquiar as palavras nos dá uma epidêmica credibilidade. Mas é pouco, não é uma mudança visível como foi a dos meus "queridos antigos conhecidos perdidos", que eu encontrei novamente. Da pra ver um colorido natural ao redor deles. Uma atmosfera de felicidade contagiante. Fiquei muito feliz por eles, mas frustrada por mim. Eu ainda não senti essa deflagrada felicidade, nem sei como é. Não sou triste, não. Sou bastante alegre inclusive, e tenho um don ótimo para arrancar sorrisos das pessoas, mas a felicidade plena e indissolúvel eu desconheço.
Adorei poder testemunhar o momento deles, tão queridos que são, cheios de luz, de cor. Foi bom pra mim, uma nova energia, vontade de conquistar novos trunfos e objetivos. Desejo de ser uma grande e belíssima novidade, assim, como eles foram.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Não quero mais.


No fim de semana fui arrumar coisas antigas, entulhos que vim guardando ao longo dos anos, e me deparei com um verdadeiro acervo das minhas memórias. Foi um mergulho ao passado. Minha primeira intenção seria me livrar daqueles papéis e objetos sem valor nem utilidade. Antigos boletins de escola da época do primário, carta de amigos passados que nunca mais tive notícias, lembranças de fim de ano, cartas de primos distantes, cartinhas de amor que não mandei, e cartinhas de amor que recebi. Uma loucura. Loucura ainda foi ver minhas agendas. Agendas Chomp, todo ano eu ganhava uma e nunca deixei de escrever um único dia. Então mudei de estratégia, ao invés de simplesmente renunciar de tudo me cerquei de um jeito que passou um dia inteiro e eu lendo, principalmente as queridas agendas, como um dos melhores livros que pudesse existir, livro que não se dedicava a um único gênero, mas a vários, comédia, romance, drama, aventura. Minha história, dia por dia contada por mim, uma biografia. O mais interessante foi que todos os sentimentos voltaram, eu lembrei de cada dia de um jeito que parecia que tinha vivenciado em poucas horas. Os cheiros voltaram às dores, que loucura aquilo tudo. Me emocionei, chorei muito, por saudade e por perceber que a vida é assim, ela passa e leva sempre algo, leva até o melhor de nós. Tudo que foi importante e necessário um dia acaba em páginas de agenda, ou em boletins da quarta série. Tudo. Um tudo que nem tem como calcular. Meus entulhos eram tesouros. Tesouros da minha vida. Mas que eu não queria mais. Não quero toda vez lembrar em abandoná-los e eles me prenderem no passado. E sentir toda aquela saudade teria sido muito bom, se junto não tivesse vindo à dor da perda, dos arrependimentos, das angústias e do medo do tempo passando sem nem olhar por nós. Resolvi então que dessa vez aquelas coisas teriam destino diferente do que eu havia dando até o momento. Não queria jogar no lixo, acho que jogar memórias no lixo é como jogar a você mesmo, então, queimei. Queimei tudo que vi pela frente. As agendas Chomp, os boletins, as cartinhas e tudo mais que pudesse me lembrar uma fisga do passado, tudo se esvaindo em chamas, não foi triste, nem difícil, depois que a gente toma a iniciativa, fica tudo mais fácil. Enterrei meus fantasmas, vou deixar o passado lá, quieto no lugar dele, o que ficou de bom eu guardarei em outro departamento.