quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Mais um dia na vida de João.


Na falta do que fazer levantou-se. Caminhou até a janela, não costumava abri-la com tanta freqüência, mas nesse dia estava tudo um pouco mais sufocante que de costume. Observou a rua e seu movimento cotidiano, repetitivo e típico do horário, 12h30 da manhã. Pessoas passando, filas em restaurante, buzinas frenéticas apitando numa desarmonia incessante, crianças cansadas e suadas que acabavam de largar das escolas. O tio do picolé, o tio do cuscuz, a tia do doce japonês, cada um gritando aos berros todos os atributos de seus quitutes. Era realmente impressionante a potência vocal dessas pessoas. Pra qualquer buzina, em meio ao transito da Avenida Paulista, ficar com inveja. Tanta gente, incontáveis, fora todos aqueles que sua vista não poderia alcançar. Nunca tinha parado pra observar tudo àquilo de fora, como um espectador. Rápido demais. Sentiu-se cansado só do tempo que permaneceu ali vendo a cidade em movimento, então, resolveu que já estava bom. Tornou a fechar a janela. Nesses momentos ele lembrava porque não a abria tantas vezes, pra se privar do caos e do tráfego. Não queria que aquela confusão entrasse e lhe invadisse todo o espaço, afinal, a casa não era muito grande, nem muito luxuosa, mas possuía uma ótima acústica, inclusive foi o ponto forte pra ele adquirir o imóvel que era bem no centro de um bairro popular... O silêncio.
Ainda estava de pijama, muito confortavelmente sentou-se em frente à TV, em seguida desistiu, era muito pra cabeça dele assistir a poluição que deixara pra fora da janela, só que televisionada. E agora? Não sabia. Deitar e tentar dormir novamente? Não. Ler também não, já não havia um único livro o qual não houvesse lido.
Só nesse tempo de indecisão já haviam passado duas horas, 14h30. Foi à cozinha e preparou um pequeno lanche. Não havia empregada e ele morava só, era muito raro dia com almoço, no máximo um macarrão instantâneo com um ovo mexido, mas nem isso ele estava disposto. Era melhor um pacote de biscoito e uma coca-cola.
Mas duas horas se passaram, 16h30. Não sentia mais fome, apenas uma gastura incomoda, uma queimação e um pouco de refluxo. O almoço não lhe caiu muito bem. Foi atrás de um sal de frutas, uma coisa em sua casa não faltava... Remédios. Pra tudo, dores de cabeça, no corpo, no dente, na barriga e não faltaria o do estômago. Claro.
Acalmado uma vez, o estômago passou a roncar. – o que queres? – perguntou. Porém, sem respostas. Não era possível que fosse fome, acabou de comer um pacote de biscoito. – problema é seu. – retrucou.
Duas horas depois, 18h30, voltou à janela. E... Lá estava, perturbadoramente, toda a tão temida confusão urbana, instalada em frente a sua casa. – meu Deus. Dessa vez resolveu não assistir o espetáculo angustiante.
Duas horas se passaram, resolveu ceder às solicitações mudas da televisão. Já não tinha TV a cabo, nem internet, nem telefone (a não ser um velho celular pré-pago). Desde o dia que ficou desempregado deixou se abater por uma enorme desesperança. Passou a viver assim, deixando o dia passar por si só. Passando por seus olhos como filme de sessão da tarde, estava lá, mas ele não via. Resolveu assistir o jornal... E mais duas horas passaram, agora já eram 22h30. Não havia mais barulho tentando penetrar pelas brechas da porta, só havia o mais puro e inquietante silêncio. – cadê todo mundo? – perguntou-se. Tirou o pijama, pensou em banhar-se, mas desistiu, já não havia ducha quente... Pra economizar energia.
Deitou-se. Ali acabava mais um dia do mais absoluto tédio. Entretanto, antes... Verificou a janela.

9 comentários:

Adriano DiCarvalho disse...

Pois é, VOLTEI!!!
E agora pra ficar. "... por que aqui, aqui é o meu lugar..."rsrs

Também senti falta de ler seus textos e dos blogueiros amigos e desconhecidos que acompanho. Mas voltei sim.

BJAO.

Alê Raposo disse...

Hummmm lembrei agora do doce japonês... putz, eu adorava qdo era criança, e faz uns cinco anos que não vejo um por aí!


Eu já tava desesperada lendo o texto! Coitado!!!!!

Beijos

No meu mundo. disse...

Que angustiante!!!
A vida passa pela sua janela e vc nem ao menos percebe, é triste.
Bjos.

disse...

Que angustiante o texto... há dias que mesmo em plena atividade, as horas parecem passar aos pares e isso é terrivelmente assustador.

Gostei do texto. Bjs, moça. :)

disse...

Quanto ao teu último comentário, não estás sendo invasiva não. Eu não vivo o que escrevo não, pelo menos não literalmente, ficcionalmente sim, de forma metafórica. Algumas poucas (bem poucas) coisas são baseadas (mas nunca fiéis) em acontecimentos reais sim. Mas confesso que prefiro os textos mais ficcionais. Quanto menos próximo de mim, tanto melhor.

Kari disse...

Tu sabe que, pra ficar em casa, eu faço de tudo, né? Mas, mesmo assim, há os dias de tédio. Em que ficar em casa angustia, machuca. O dia passar e tudo o que se quer é que ele acabe logo...

Gostei muito do texto. Senti a angústia junto a ele...

Beijão

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, eu num lugar como esse, ficaria louco. Ainda por cima sem livros. A maioria dos brasileiros é livre e não usa essa liberdade pra exercitar algo da liberdade, seja ela expressiva ou não.

Bjos querida e bom domingo!!!


Marcos Seiter

O Profeta disse...

Tu és uma maravilhosa ficcionista...


Doce beijo

disse...

Que triste...
=/
MAs tem gente que vive assim mesmo né!

Só que o João vai sair dessa e vai ter dias felizes né!

bjo