quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Literatura de cordel - "Depois de um dia sem glória"



Por Érica Colaço

Certo dia de manhã, acordei logo cedinho.
Percebi que algo estranho atravessava meu caminho
Fui olhar de perto, achando
Logo de certo, que era um vulto a me assombrar.
Mas foi quando percebi
Que estava por um triz de um gato preto de azar.

Quando vi ele passou, e nada pude fazer.
Amarelo fiquei do medo de me perder.
Pois já dizem por ai que se um desses aparecer,
E você não perceber, o danado,
Leva junto, feito ladrão vagabundo,
Toda a sorte de você.

Dizem que são sete anos,
Isso não posso saber, mas fiquei com tanto receio
Que sai por entre os meios dos mato das minhas banda,
De um jeito tão esquecido que só me dei conta no grito
Da comadre Sebastiana, que eu tava era pelado, feito menino acuado,
Apenas com as havaina.

Senti que rubro fiquei diante da situação,
Que de um jeito estranho esqueci da maldição.
Queria somente partir pra dentro da minha casa,
Vi que Dona Tiana tava ficando assustada.
Precisava vestir um calção antes que o seu marido João
Aparece irritado, querendo pegar a foice
Pra arrancar meus predicado.

Chegando em casa fiquei roxo de tristeza.
O almoço que fiz pra Rita (me encantar com a sua beleza) estava
Todo queimado, pois quando fui correndo atrás do gato danado,
Deixei a broca esquentando em cima da lenha acesa e o fogo devastador
Com suas chamas de horror, foi apagando de jeito
O meu encontro de amor.

Ainda com esperança, me botei com elegância pra quando Rita chegar.
Já imagino ela vindo, andando, quase caindo, nervosa por me avistar.
Eu cavalheiro que sou indo a sua pessoa, dando o braço de apoio
Pra ela vim no caminho, que apesar dos espinho,
Eu pus azul de amor. Elogiei seu cabelo e ela me deu um sorriso,
Rosa de tão bunito, da vontade de guardar.
Será a minha vitória, depois de um dia sem glória,
Os lábios de Rita beijar.

















Imagens - Kari Mendonça

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Por mais um dia...

Sim, eu sei que poderia ter sido tudo diferente.
Sei que aproveitei mal o nosso tempo.
Tempo que era só nosso.
Acontece que a gente não pode prever o futuro.
Ah, se eu pudesse imaginar que aquele ia ser o ultima dia.
Eu teria feito diferente, eu teria dado o meu melhor, mas pra mim, era só mais um dia.
Um dia qualquer que passaria sem maiores complicações.
Não me perdôo, não.
Tenho isso em minha mente repetido como um mantra, que não cessa.
Permanece me torturando.
Sempre digo que não há dor maior que arrependimento. Não há.
Nem dor de amor, nem de saudade.
Todas passam se saciadas suas carências.
Arrependimento não, ele nunca vai passar, porque nunca eu poderei voltar para acalentá-lo, ou corrigi-lo.

Estava pensando... O que eu faria se tivesse mais um dia com alguém que eu perdi?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Intimidade.

Ao piscar das pálpebras.
Do pronome possessivo.
É a minha parte maior,
A que me cabe por direito.
Deixo-te uma parte,
Se dela conquistares, será a tua metade.
Conquista, mas cuida.
Cuida, pois desta metade que terás guardaras o fio da ligação que nos unira.
Não poderei fazer nada se acaso romperes este fio, apenas sentir a dor que me causaras.
Entraras sem pedir,
Poderás plantar milhões das tuas coisas em mim...
Poderás tirar milhões das minhas pra ti.
Pagarás a conta do silêncio, para que ele nunca vos falte.
É a cláusula primeira – parágrafo único do nosso contrato de confiança.
Nosso termo de compromisso começa agora.
Faço minhas todas as letras que te impus, se me permitires também, uma metade de ti.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A rosa azul...


Um dia Sarah acordou, era um dia cinza e fazia frio. Lá fora chovia de um jeito que a muito ela não viu. Pensou que se vivêssemos em tempos bíblicos, aquela era a hora da arca ser construída. Também pensou que de nada adiantaria a arca, porque ia ser muita gente querendo um lugar. Iam ter brigas, empurrões, pessoas seriam pisoteadas, alguns subversivos arrumariam armas e já começariam a fazer a triagem ali mesmo, de quem iria ou não ter seu lugar garantido, fora que era óbvio que seguiriam uma ordem hierárquica. Como ela faz parte de uma classe média, média, e também não possui nenhum irmão, primo ou tio com influência, esse lugar ao sol não caberia a ela, ainda porque nunca foi do seu temperamento se meter assim, em meio a confusões. Sem dúvida morreria afogada, talvez, quem sabe, um dia quando as águas baixassem, encontrariam ela ali, dentro do seu quarto, em uma Atlântida perdida. Meio sonolenta, meio com preguiça foi se olhar no espelho. Não sabe bem como, mas não se reconheceu. Ficou parada, em transe, olhando aquela imagem estática a sua frente. Era uma representação de corpo inteiro. Percebeu um sinal que nunca havia notado, uma leve ruga se estabelecendo em sua testa, uma estria que nascera na “cartucherira” (gordurinha localizada acima dos quadris) e algumas irmãs gêmeas. Bem que ela sentiu coçar, dizem pra não coçar uma estria nascendo, porque senão ela nasce. Como assim?? Não entendia muito bem essa lógica, se ela ta nascendo já, o que adianta coçar ou não coçar, pelo menos ao esfregar as unhas no local afetado sente-se um pouco mais aliviada, coceira é uma coisa irritante.
Resolveu se aproximar mais da estranha, que estava vestida com a mesma roupa e se movimentava igual a ela. Era impressionante como ela sabia os movimentos precisos que Sarah ia fazer. Quis ser mais rápida. Queria mexer rapidamente o braço, a sobrancelha, os dedos, até ela não ser mais tão exata, pra estranha perceber quem era a esperta dali. Fingia que ia correr... E nada. Continuava acertando, sem atrasar por um instante que fosse os passos que Sarah desse.
Cansada, abandonou a estranha lá, presa naquela enorme superfície, lisa, brilhante e gelada.
Olhou a foto que tinha na sua mesa de cabeceira. Supostamente era ela também, mas em proporções menores. Pequenos olhos amendoados, um vestido rosa de fita, um sapatinho branco de fivela, uma xuquinha na cabeça, porém não se reconheceu. Era uma criança que estava sendo contemplada com um bonito porta retrato prateado, ao lado de sua cama. Por quê? Olhou de perto a pequena intrusa, aproximou a imagem ao máximo de onde pudesse enxergar todos os detalhes. Um corpo frágil, uma pele branca, sem manchas, sem estria, sem sinais e um olhar que ela não lembra. Um olhar de quem não espera nada, porque tudo ali já parecia suficientemente encantador. Como se quem estivesse em sua frente tivesse lhe mostrando o néctar de uma rosa azul. A chuva ainda caia o dia já havia começado estranho, era o dia que havia se perdido. Procurou aquela menina em seus pensamentos, por dentro de si, mas não encontrava. Também não lembrava da estranha do espelho. Não há dúvidas, perdeu-se por entre as linhas do tempo. A linha tênue que separava o passado do presente, havia se rompido, tudo se misturou e Sarah agora não tinha mais identidade. Era uma outra Sarah, a terceira, sem figura, sem imagem.