quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A rosa azul...


Um dia Sarah acordou, era um dia cinza e fazia frio. Lá fora chovia de um jeito que a muito ela não viu. Pensou que se vivêssemos em tempos bíblicos, aquela era a hora da arca ser construída. Também pensou que de nada adiantaria a arca, porque ia ser muita gente querendo um lugar. Iam ter brigas, empurrões, pessoas seriam pisoteadas, alguns subversivos arrumariam armas e já começariam a fazer a triagem ali mesmo, de quem iria ou não ter seu lugar garantido, fora que era óbvio que seguiriam uma ordem hierárquica. Como ela faz parte de uma classe média, média, e também não possui nenhum irmão, primo ou tio com influência, esse lugar ao sol não caberia a ela, ainda porque nunca foi do seu temperamento se meter assim, em meio a confusões. Sem dúvida morreria afogada, talvez, quem sabe, um dia quando as águas baixassem, encontrariam ela ali, dentro do seu quarto, em uma Atlântida perdida. Meio sonolenta, meio com preguiça foi se olhar no espelho. Não sabe bem como, mas não se reconheceu. Ficou parada, em transe, olhando aquela imagem estática a sua frente. Era uma representação de corpo inteiro. Percebeu um sinal que nunca havia notado, uma leve ruga se estabelecendo em sua testa, uma estria que nascera na “cartucherira” (gordurinha localizada acima dos quadris) e algumas irmãs gêmeas. Bem que ela sentiu coçar, dizem pra não coçar uma estria nascendo, porque senão ela nasce. Como assim?? Não entendia muito bem essa lógica, se ela ta nascendo já, o que adianta coçar ou não coçar, pelo menos ao esfregar as unhas no local afetado sente-se um pouco mais aliviada, coceira é uma coisa irritante.
Resolveu se aproximar mais da estranha, que estava vestida com a mesma roupa e se movimentava igual a ela. Era impressionante como ela sabia os movimentos precisos que Sarah ia fazer. Quis ser mais rápida. Queria mexer rapidamente o braço, a sobrancelha, os dedos, até ela não ser mais tão exata, pra estranha perceber quem era a esperta dali. Fingia que ia correr... E nada. Continuava acertando, sem atrasar por um instante que fosse os passos que Sarah desse.
Cansada, abandonou a estranha lá, presa naquela enorme superfície, lisa, brilhante e gelada.
Olhou a foto que tinha na sua mesa de cabeceira. Supostamente era ela também, mas em proporções menores. Pequenos olhos amendoados, um vestido rosa de fita, um sapatinho branco de fivela, uma xuquinha na cabeça, porém não se reconheceu. Era uma criança que estava sendo contemplada com um bonito porta retrato prateado, ao lado de sua cama. Por quê? Olhou de perto a pequena intrusa, aproximou a imagem ao máximo de onde pudesse enxergar todos os detalhes. Um corpo frágil, uma pele branca, sem manchas, sem estria, sem sinais e um olhar que ela não lembra. Um olhar de quem não espera nada, porque tudo ali já parecia suficientemente encantador. Como se quem estivesse em sua frente tivesse lhe mostrando o néctar de uma rosa azul. A chuva ainda caia o dia já havia começado estranho, era o dia que havia se perdido. Procurou aquela menina em seus pensamentos, por dentro de si, mas não encontrava. Também não lembrava da estranha do espelho. Não há dúvidas, perdeu-se por entre as linhas do tempo. A linha tênue que separava o passado do presente, havia se rompido, tudo se misturou e Sarah agora não tinha mais identidade. Era uma outra Sarah, a terceira, sem figura, sem imagem.

8 comentários:

Alê Raposo disse...

Mas olha só!!! Todo mundo embelezando seu blog!! Ficou lindo.
Bjs

odin disse...

Tá muito bom o texto, e a forma como ele corre, gostei muito, é impossivel nãos e identificar um pouco com Sarah. Espero poder vê-la numa proxima fase da vida.

No meu mundo. disse...

teu blog ficou lindo, apesar de não gostar muito desses bichos!
Mas combinou bastante.
E tadinha de Sarah né, achei ela muito melancólica.
Mas tá lindo seu post.
bjo amiga.

Kari disse...

É. Ás vezes acabamos nos perdendo em nós mesmas. A vida passa tão rápida que, se não tomarmos cuidado, acabaremos como a Sarah...

Beijão pra tu
e amei o visual novo!!!!

Cá mi la disse...

Ah floor desculpa!@
mas não li hahaha
prometo que volto com mais calma pra ler tá!
vim aqui pra agradecer o comentário!

beijo

Palavras de um mundo incerto disse...

Primeiramente,
adorei o novo layout!!!

Seguindo: quantas imagens de mim eu encontro por aí? Várias, milhares, infinitas,que a cada pensamento, acontecimento, se vão para um mundo, dois mundos, três mundos... Nem sei quem sou!

Bjos e bom domingo!!!


Marcos Seiter

Nataliinha disse...

AAh, gosteii do texto siim .
E ja ta favoriitaada .
Beiijos .

=*

O Profeta disse...

Uma belissima peça de ficção o teu texto...


Uma réstia de luz no crepúsculo
Uma súplica presa na brisa
Um caminho sem fim
Pela terra da tua lembrança


Convido-te a ver o diadema da Noiva do Mar

Bom fim de semana


Mágico beijo