quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Daqui...

Um pulo do alto mais alto...

Ela saltou e foi sentindo a queda com certo prazer pernicioso, uma excitação congênita, incontrolável, dominando todos os seus espaços, deixando-a extasiada naquele abismo sem precedente que a atraía como imã a um mergulho de sensações.

O vento de uma altura daquelas é gelado, mas conforta o coração; dá medo, mas também vontade de continuar. Ela não se esqueceu da altura indeterminada e que poderia passar o resto da vida ali, mas já se jogou há um tempo considerável e é chegada a hora da colisão.

Pensou enquanto caía "Lá embaixo algo pode me amparar, suavemente"... Agora, mais perto, acha que não. Ainda não vê o final, mas sente que não há nada esperando por ela. E todo mundo sabe o que vai acontecer: quando um corpo se joga de certa altura, alcança determinada velocidade e o atrito é inevitável - cabeças vão rolar, corações hão de se expor e contornos deixarão de ser pernas para se tornarem quebra-cabeças.

Ela avisou "Não me solta"... Mas é complicado quando o corpo tende a cair por si só, e, do outro lado, há um abismo natural - os braços não aguentam...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pernas pra que te quero pernas porque te quero pernas...


Nossas pernas cansadas
entrecruzadas no ar
entregues ao nada
esperando janeiro chegar...

Desejo...

Esse meu desejo por tuas pernas, esse meu fetiche eterno, Érica
Fico a te poetizar em meu inferno particular,
Santa Érica

A me banalizar...


Essa é tua última chance
Chora
Tola Érica
A esperar...

(Eu, para Tu, com carinho)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tua e Meu...

Sou tua, sim, completamente nua e entregue... Porque me pegaste pra ti, porque parece que já tinhas o meu manual de instrução... Porque decifras meus sonhos e sabes do que eu gosto e quando eu quero... E porque, quando estou contigo, o mundo gira tão devagar...

Mas, se fosses meu... Ah, se fosses meu... eu poderia fazer tantas coisas maravilhosas... Tal como dizer a uma estrela “pare onde está e ilumine o caminho do meu amor”: e toda estrela, acima de ti, saberia obedecer, como eu... Ah, se fosses meu, só meu: eu poderia viver apenas para seu amor, ajoelhar no seu santuário e desistir de tudo o que possuo – sim, até meu coração, até minha vida, eu trocaria para te ter... Pensa só quão sortuda eu seria se te tivesse... Johnny Mercer e Matty Malneck já disseram isso uma vez... E Billie canta bem melhor que eu... É, ela já sabia disso bem antes de mim...



"Two or three girls/ Has he/ That he likes as well as me/ But I love him"... My Man: Letra de Ira Gershwin e Música de George Gershwin. If you are mine: Johnny Mercer e Matty Malneck, na voz da imortal Billie Holliday: quando voz e música se fundem numa coisa só para cantar o amor...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Alvorada


- Não vives
Nem respiras
Sem mim:
Tu nem sequer gozas
Sem que eu diga que sim...!

- Por isso mesmo
Não me deixes,
Ne me quitte pás...
Agora que o Sol deu de brilhar
Vens me falar em despedida?...
(Logo tu, que tanto sabes do mar?...)

O mar reluz só, sereno, ao largo e ao léu
E eu, diante da imensidão risonha deste céu,
Sigo sem entender a lágrima de tua partida...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Como quem chega do nada...


Sorrateiro, Ele se instalou. Deu um jeito de se aconchegar naquele Peito sossegado e permanecer cantarolando suas peripécias, suas virtudes congênitas, próprias das grandes personalidades! O Peito adorou e logo abraçou aquele inquilino tão cheio de histórias sem fim. Só que, como todo posseiro de vida, às vezes aparentava que em breve partiria, embora nunca tenha sido isso que o Peito quisera... Tratou Ele então de arrumar seus espaços, de um jeito tal que pelo menos 1/4 do cômodo ficasse eternamente ocupado com sua presença...

Não dizendo nada, Ele seguiu dormindo em cima de apreço, acordando embaixo de chuvas de entusiasmo e se alimentando de todo carinho daquele íntimo pulsar do Peito extasiado. Foi ouvido e admirado. O Peito, que sempre quis encontrar o que abrigar, dessa vez achou mesmo que o locatário havia se agradado daquele espaço e que iria viver ali por um tempo interessante... Mas, não: alguma coisa aconteceu; Ele não se sentia mais tão em casa, nem tão confortável nas instalações...

Vai andar, então, por vias que esse Peito confuso não encontra... O Peito já sente falta, mas sabe que vai esperar que Ele volte, mesmo que em temporadas de baixa estação, nem que seja só para se abrigar do frio que um dia ainda há de sentir...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como eu sei? Eu só sei!



Sorri agora, todos os dias quando acorda... É tão natural!

Fazem parte de suas alvoradas todas as alegrias condicionadas, nos sorrisos iluminados... Como se a luz, que produzisse tais sorrisos, ofuscasse tudo... num raio de até 1.544 km - um longo caminho, como de Recife a São Luiz: toda a extensão deslumbrada do querer mais intenso! E o sol? Fingindo-se de astro-Rei, roubando o brilho das afeições.

Ela levanta e caminha com certa oscilação, grande afã procedente de uma saudade que fez morada do seu coração. Abre os braços, já pensando nos abraços dessa ternura, desse carinho que cheira a poesia; a um samba com sabor, que a mantém no compasso até nas noites intransitáveis, que traz uma multidão de saudades...

O tempo? Calcula (sob uma matemática mandingueira) mais alguns milésimos de compreensão, e ela vai levando... Porque enquanto for assim, completo e repleto de paixão; enquanto sentir essa deliciosa proteção; enquanto Chico, Noel, Nelson, Tom e João cantarem os seus passos, guiarem sua emoção, não haverá razão pra mudar! E tudo vai permanecer igual: afinal, não há mais nada a fazer...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Começo...

Hoje sentiu raiva do mundo... Depois sentiu pena...

Procurou saber dos seus defeitos, suas virtudes defeituosas. E percebeu que não as condena, mas as admira! Seu lado humanista termina por fazê-la entender até das coisas que magoam seu coração. Viu tudo por um outro ângulo, o de cima, e dali enxergou o horizonte e sua curva. E ouviu quando o sol tocou a água do mar...

Hoje viu as pessoas que cantam sem querer, que bebem sem querer, que riem sem querer; que não choram para não estragar a cara; que não gozam para evitar comentários. Engraçado achar que, no fundo, tem um pouco de tudo isso: ama tanto e agora está só, arrependida de só querer! De dar tão pouco achando estar dando muito! De não tomar conhecimento de tudo que passou! Erros...

Pouca coragem para ir até o fundo? Se ainda quer tanto sentir o amor, chorar, gozar o amor... Passar o dia olhando olhos de enternecer. Ter ressacas de beijos e grude de suor nos abraços intermináveis. Aproveitar esses momentos que ainda não passou, todos aqueles desejos que ainda não sentiu. Gritar... Porque a vida é grito! Quer amar até o fundo sem ter medo, sem sentir o coração gelar! E não acabar antes do fim, porque sabe que ainda nem começou...

"Vem saciar essa tua agonia no meu corpo.
Que quando for o jorro do gozo, cuspirei na tua boca para só então te penetrar."

(John Donovan)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Nem sei...


Abrir-se em certezas não é tarefa das mais fáceis. A verdade às vezes é feia, cruel, carrega o peso dos passos mal dados, que, na maioria das vezes, queremos guardar apenas, deixar no cantinho das coisas que não devem se repetir... O que for de compartilhar que se reparta então: todavia, o que não diz respeito, não precisa ser explanado, não há necessidade disso! O começo é daqui pra frente. Daqui pra trás, acabou, é rastro de memória.

Contudo, acho bem mais difícil mentir, inventar. Não por ser, em si, difícil, mas por exigir do indivíduo uma grande carga dramática: a criação de um personagem imediato, numa instantaneidade absurda... E eu, por experiência própria, sei que não saturo essa veia artística! Ao contrário, o pouco tempo que me dediquei ao teatro, com suas facetas e peripécias, não fui muito consagrada, e, depois de alguns percalços e tropeços, desisti de tentar minha vaga na Malhação... Enfim, tanta introdução foi só pra chegar a um ponto categórico: no que queremos acreditar? Verdades austeras ou suntuosas mentiras? Não sei, decididamente. Sei que todo mundo reclama dessas “falsas verdades”, mas há muitos que prefiram confiar nelas: são mais deleitáveis, coloridas, cheias de efeitos especiais e experiências mirabolantes!

Perdoem-me, não tenho isso a oferecer! Já fui posta em dúvida, sei que nessa vida todo mundo paga um preço alto com decepções, que as pessoas magoam as outras, sei o quão é complicado confiar. Só que eu ainda confio; na dúvida, prefiro essa opção: acho mais digestivo do que ter que por à prova todas as linhas que me narram. Só que não gosto de implorar! Não condeno, não julgo nada nem ninguém; reconheço as falhas humanas, todas as suas artrites, e persisto quando acho que vale a pena, mas só até a página 20, depois desisto, muito contra minha vontade algumas vezes...

Começo a pensar que ninguém sente mais tudo isso que é de se sentir, acabou-se o que era doce... Sou metódica, vivo e vivi muita coisa, mas dentro da conjuntura corrente: não saio em busca de aventuras. Poderia até. Afinal, até que elas poderiam tomar-me de assalto qualquer hora...

Às vezes, ou na maioria das vezes, sou tomada por esses desejos insanos (?) de abraçar o mundo! Sair correndo, viver mesmo! Mas as circunstâncias não permitem, tenho uma família na fila da cobrança, um curso de jornalismo quase no fim, projetos de um futuro bom (ainda que eu ponha em dúvida o quanto esteja fazendo por querer ou por estar condicionada a alguns enquadramentos – onde todo mundo acaba se perdendo – e também o quanto que esse “bom” é bom mesmo!)... Um passo após o outro... No fim, acho que não se trata de vontade, mas condição. Daquelas deliciosamente impostas por algo maior e niilista que foge ao meu controle e escapa para longe do meu mar... Acho mesmo é que, no fim, eu só quero amar...! Algo como ficarmos a ver uma rosa suspensa no ar...