quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Nem sei...


Abrir-se em certezas não é tarefa das mais fáceis. A verdade às vezes é feia, cruel, carrega o peso dos passos mal dados, que, na maioria das vezes, queremos guardar apenas, deixar no cantinho das coisas que não devem se repetir... O que for de compartilhar que se reparta então: todavia, o que não diz respeito, não precisa ser explanado, não há necessidade disso! O começo é daqui pra frente. Daqui pra trás, acabou, é rastro de memória.

Contudo, acho bem mais difícil mentir, inventar. Não por ser, em si, difícil, mas por exigir do indivíduo uma grande carga dramática: a criação de um personagem imediato, numa instantaneidade absurda... E eu, por experiência própria, sei que não saturo essa veia artística! Ao contrário, o pouco tempo que me dediquei ao teatro, com suas facetas e peripécias, não fui muito consagrada, e, depois de alguns percalços e tropeços, desisti de tentar minha vaga na Malhação... Enfim, tanta introdução foi só pra chegar a um ponto categórico: no que queremos acreditar? Verdades austeras ou suntuosas mentiras? Não sei, decididamente. Sei que todo mundo reclama dessas “falsas verdades”, mas há muitos que prefiram confiar nelas: são mais deleitáveis, coloridas, cheias de efeitos especiais e experiências mirabolantes!

Perdoem-me, não tenho isso a oferecer! Já fui posta em dúvida, sei que nessa vida todo mundo paga um preço alto com decepções, que as pessoas magoam as outras, sei o quão é complicado confiar. Só que eu ainda confio; na dúvida, prefiro essa opção: acho mais digestivo do que ter que por à prova todas as linhas que me narram. Só que não gosto de implorar! Não condeno, não julgo nada nem ninguém; reconheço as falhas humanas, todas as suas artrites, e persisto quando acho que vale a pena, mas só até a página 20, depois desisto, muito contra minha vontade algumas vezes...

Começo a pensar que ninguém sente mais tudo isso que é de se sentir, acabou-se o que era doce... Sou metódica, vivo e vivi muita coisa, mas dentro da conjuntura corrente: não saio em busca de aventuras. Poderia até. Afinal, até que elas poderiam tomar-me de assalto qualquer hora...

Às vezes, ou na maioria das vezes, sou tomada por esses desejos insanos (?) de abraçar o mundo! Sair correndo, viver mesmo! Mas as circunstâncias não permitem, tenho uma família na fila da cobrança, um curso de jornalismo quase no fim, projetos de um futuro bom (ainda que eu ponha em dúvida o quanto esteja fazendo por querer ou por estar condicionada a alguns enquadramentos – onde todo mundo acaba se perdendo – e também o quanto que esse “bom” é bom mesmo!)... Um passo após o outro... No fim, acho que não se trata de vontade, mas condição. Daquelas deliciosamente impostas por algo maior e niilista que foge ao meu controle e escapa para longe do meu mar... Acho mesmo é que, no fim, eu só quero amar...! Algo como ficarmos a ver uma rosa suspensa no ar...

14 comentários:

Dilberto L. Rosa disse...

Belíssimo 'post'...! Ainda bem que conservaste o humor em meio a tantas divagações... Improvável o mundo sem elas, não? Conseguiste, como um bom maestro, subir e descer as melhores notas sobre coisas simples e complexas, parabéns!

Devo dizer que gosto muito de Amélie Poulan também (uma pena não teres colocado imagens do filme...) e de sua bela trilha! Gosto muito também do que escreves! Gosto muito de ti! Grande abraço, niilista-mor, acima do bem e do mal, rs!

Renata Braga disse...

Bom... verdades, mentiras, um sonho a mais, desejos insânos e incontroláveis, uma rosa suspensa no ar... quem melhor que tu, grande poetisa e não digo isso da boca pra fora héim, pra descrever tão bem, e nos deixar aqui, como crianças a pensar..

Desistir ? jamais!!!!!!

E acho, acho não, tenho certeza, o que queremos todos, simples mortais, ou nem tanto... ehhee é mesmoo AMAR!

E ser amado....

Deu...acho que até me excedi... rs

Lov.u

Mågø Mër£Îm disse...

Mesmo feia e cruel... a verdade é verdade!

Sandra ' disse...

Vejo a mentira mais como uma capa protectora do que propriamente como algo negativo. Quem mente é porque não está apto para aceitar a realidade, tanto que há quem acabe por acreditar nas suas próprias mentiras. Mentir é um vício: começa-se aos poucos até que o mentiroso (um eterno insatisfeito consigo mesmo) procura inventar mentiras ainda mais absurdas até chegar a um ponto em que se dá o colapso, ou a overdose, como queira.

Enquanto que a mentira é ela nua e crua, com ou sem cenários fantásticos, a fantasia não é uma mentira, nem é necessariamente algo negativo. Quem fantasia não quer fugir, mas apenas se abstrair por breves instantes da realidade. A fantasia é menos nociva. Se machucar, machuca quem a constrói, não quem a escuta. Para além disso, é muito mais fácil nos soltarmos da fantasia e cairmos na realidade novamente, do que nos desembaraçarmos da mentira.

Discordo de ti quando dizes que não tens veia artística. Então este blog e estes textos são o quê? Não é arte? Este blog não é constituído por uma junção de várias Éricas, vários estados de espírito, de humor e de mente? E expressar os sentimentos com palavras não é arte? A mais pura das artes, aliás.


Querer, queremos o mundo. Ter, temos a nós. E penso ser mais do que o suficiente, não?

Beijo querida*

Kari disse...

Acho que, de algumas forma, todos nós queremos amor. Seja um amor romântico, seja um amor materno, paterno, ou apenas um amor de amigo. Acho que é o sentir-se amado que nos ajudar a seguir em frente e a correr atrás daquilo que queremos, sonhamos e desejamos.

Linda palavras, amiga!!!!

Beijãooooooo

Alisson da Hora disse...

Desabafos. Infelizmente não sou tão transparente pra fazer algo do tipo.

Você, definitivamente, tem um controle incrível das palavras...não abandone isso, jamais...

=**

HSLO disse...

Então ame...muito...viu. Viva o amor.

Belíssimo texto.

abraços


Hugo

Palazo disse...

Só queremos amar? Isso é estranho... se não me enganos amamos a vida, as pessoas a nossa volta... ou será que sempre é preciso amar alguem especifico, dar nome ao amor para que a rosa flutue? rss

Beijos

Érica disse...

Sandra flor, adorei seu comment detalhado do texto, me deixa feliz que tenhas acompanhado com comprometimento. Um ótimo ponto de vista.
Beijos

Érica disse...

Palazo, sem dúvida, amamos as pessoas, a vida, e tantas outras coisas, todas que nos cativam e todas que cativamos. Não. O amor não precisa ter nome, não precisa ser um, e eu pensei ter deixado isso suspenso, não? Eu só quero amar, só queremos amar; em um todo sem fim. Mas isso é o melhor, um texto reflexivo e suas tantas interpretações, adoro tudo isso.
Beijos

Luma disse...

Até que se prove que essa vida é de verdade, vivemos uma grande mentira!! Beijus,

Tríade disse...

Todos sentimos necessidade de amar...

Bom texto!
Abraço

Paula disse...
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Layara disse...

Profundas letras para pensarmos, sobre as mentiras que por vezes acreditamos, quimeras que olhamos e assim vamos, ou não, entre um dia e outro, há de ter verdades...

Beijos do meu Horizonte!

[bela reflexão!]