terça-feira, 20 de abril de 2010

Carências...



Falta do apreço do vento soprando
à sombra da calma dos ombros que apoiam
mãos que abraçam as cores dos olhos
e beijam na boca as falhas corridas
salvando as tristezas de más companhias
deixando dormir a paz de um sonho...


Munch, Melancolia

domingo, 11 de abril de 2010

Parabéns


De tantos que já fui e cheio com a saudade de quem eu sou, sigo torto, meio enviesado, como bem o sabes... Mas também sabes, mais do que ninguém, o quanto de nós morre em inúmeras tentativas novas de suicídio incauto, especialmente quando diante da paixão que tão bem traçaste no último 'post': todos nós somos assim, minha cara, sem exceção! E é besteira grande nos "matarmos", porque logo nos redobramos e voltamos à vida, renovados!

Rio quando exaltam palavras que não disseste, mas, se brinco entre bocas e me jogo por aqui sem nome, bom pensarem que foste tu que as traçaste: afinal, falas tão bem e tão bem sabes brincar com as palavras, que nunca será desmerecida qualquer exaltação para ti (pelo menos poderiam ser mais atentos ao que está impresso na tela, não é mesmo?!)!

Porque és este tesão de menina que só eu conheço por inteiro é que te lanço no ar hoje, solta, e invado teu espaço virtual para dizer que te renovas hoje em mais um ano de aprendizado (e tão bem tens aprendido entre lágrimas que me comoves, tal como cada linha que traças sobre sentimentos antes inimagináveis...) e te falo que amar é assim mesmo: senão não seria sofrer e o resto não teria a menor graça!

Feliz aniversário nesta história real de sonhos Lynchianos e Amelies decantadas no teu corpo bonito de mulher feita e nos teus olhos lindos de menina triste que quer saber mais - e, a cada dia, sabes mais, pode ter certeza... E me ensinas também...

Beijo grande.

(EU)
Curiosa, não é? Nem vem com esses olhinhos pidões, não: só aos poucos verás teus presentes e surpresas deste dia especial... Até Gullar veio com sua Poesia te homenagear...

Um instante


Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente


Definição da moça


Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do quando nua?

como possuí-la
quando está desnuda
se ela é toda chuva?
se ela é toda vulva?


Subversiva


A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.


Não-coisa


O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa

de saliva e papilas
invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa
sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

Poemas do livro Muitas Vozes (Ed. José Olympio, 1999), de Ferreira Gullar.
Com amor... de um lindo veludo azul e do tamanho de um elefante, numa história real que só a gente p'ra entender ou acreditar...